violência contra idosos

Como de costume, ontem foi visitar a mãe, que vive sozinha na sua casita humilde, “lá entre os montes”, como ele diz aos amigos. A última vez que a visitou foi no início do mês passado.
Como de costume, é sempre no início do mês que ele visita a mãe, e nunca falha!
– De abandono não me podem acusar, visito a minha velha todos os meses. – diz ele orgulhoso.
Como de costume, chegou apressado, sem muito tempo para conversas.
- Hoje estou com pressa, vim só dar um beijinho e ver se estás bem. Estás, não estás? Estás sempre bem, és rija!
Como de costume, nem 15 minutos ficou. Já tinha umas coisas combinadas com a nova namorada, que tinha conhecido há uns dias e que ia dar uma boa nora...
- Quem sabe se não nos mudamos para cá, quando casarmos, para nos fazeres aquelas sopas boas que só tu sabes fazer!
Como de costume, não se esqueceu de pedir à mãe o dinheiro da reforma, que ela recebera no dia anterior.
- Sabes que para vir cá preciso de dinheiro para o combustível, e tu, por aqui, no meio do nada, vais gastar em quê? Tens a tua hortita, o porco...
Como de costume, deixou apenas o dinheiro suficiente para os medicamentos dela, mas não sem antes se queixar...
- Mas tu precisas mesmo destes comprimidos todos? Aposto que metade deles não fazem nada, servem só para encher os bolsos aos médicos.
Como de costume, a mãe sorriu para o seu querido filho, que tem um feitio meio torcido, mas que trabalha muito, lá na cidade, e não tem tempo, coitado!
- Vou tentar vir na próxima semana, ou depois, mas não prometo. É o trabalho... tu sabes!
Como de costume, ele saiu e esqueceu-se de dar o beijinho à mãe. Também não lhe ouviu a voz, porque não teve tempo!
- Adeus, mãe. Cuida-te!
Como de costume, a mãe foi até à porta e não arredou pé enquanto o carro vermelho do filho não desapareceu no horizonte. Ela gostava que um dia ele ficasse, ao menos para jantar, e assim ela podia contar-lhe as novidades...
- Sabes, vendi o porco! É que senti-me mal há 2 semanas, precisei de ir ao médico e de comprar mais uns medicamentos e não tinha dinheiro... Ainda te liguei, mas...
Como de costume, ele não atendeu...! 

 

Hoje, dia 15 de junho, assinala-se o Dia da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído em 2006 pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa e pelas Nações Unidas, com o objetivo de fazer refletir sobre esta questão social tão sensível e acabar com a violência contra os mais velhos.
Vivemos numa sociedade cada vez mais envelhecida, a visão que temos dos idosos continua muito negativa e é preciso mudar essa mentalidade, não só porque a violência contra a Pessoa Idosa é considerada uma grave violação dos Direitos Humanos pela ONU, mas, acima de tudo, porque todos, independentemente da idade, têm direito à sua dignidade.

A violência contra a Pessoa Idosa pode assumir várias formas, como o abuso físico, psicológico, emocional, sexual e financeiro.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a violência contra os idosos pode ser “um ato único ou repetido, ou a falta de ação apropriada, ocorrendo dentro de qualquer relacionamento, onde haja uma expectativa de confiança, que cause dano ou angústia ao idoso”.
O crescente envelhecimento da população nos países mais desenvolvidos favorece a violência contra esta camada da sociedade, tanto pelas famílias como pelos serviços de acolhimento, e prevê-se que os números de vítimas de abuso aumente rapidamente.

É preciso agir. É preciso mudar os costumes.

 

Seja em que mês for, deixemos a indiferença de lado e denunciemos a violência doméstica, seja ela contra mulheres, homens, crianças ou idosos.

Este ano, em que comemoramos 30 anos, estamos a apoiar a Mulher Século XXI – associação de desenvolvimento e apoio às mulheres e, assim, contribuir para uma sociedade mais justa.

De janeiro a dezembro, esta será a nossa causa.

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